Livro Nações do Candomblé de Mateus Aleluia está disponível para download
Leia a apresentação do livro escrita por Danillo Barata, Pró-Reitor de Extensão e Cultura da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)
O livro Nações do Candomblé, de Mateus Aleluia, representa um marco simbólico e espiritual para a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Sua publicação pela Editora UFRB, sob o selo Anjo Negro, traduz o compromisso institucional da universidade com a valorização dos saberes afro-brasileiros e com a preservação das memórias e epistemologias que sustentam a diversidade cultural do país.
O selo Anjo Negro, instituído pela PROEXC/UFRB, reconhece e celebra o legado de artistas, mestres e organizações da resistência negra, cuja trajetória constitui um patrimônio imaterial da nação. A inclusão desta obra em seu catálogo reforça a missão da UFRB de difundir conhecimento a partir dos territórios, fortalecendo o vínculo entre a universidade pública e as comunidades tradicionais, religiosas e culturais que fazem parte da história viva do Recôncavo.
Na cosmovisão de Mateus Aleluia, o Candomblé é compreendido como um espaço simbólico e sagrado, comparável a um grande útero, matriz de criação e continuidade, onde ancestralidade e espiritualidade se entrelaçam. Como religião de matriz africana, sua estrutura é essencialmente matriarcal, e a mulher assume o papel central na preservação, transmissão e renovação dos fundamentos da tradição.
O Recôncavo Baiano, especialmente as cidades de Cachoeira e São Félix, constitui-se como um território matricial dessa espiritualidade. A musicalidade que ecoa dos terreiros e se espalha pelo Vale do Paraguaçu integra o modo de ser e de estar dessas comunidades. Como lembra Aleluia, antes da palavra existia o som, o ritmo dos atabaques, o canto dos orixás, a pulsação da terra. A música do Candomblé não é mero acompanhamento cerimonial, mas um instrumento de pertencimento e de transmissão do conhecimento ancestral, um código sonoro que une o visível e o invisível.
Nas narrativas africanas sobre a criação do mundo, o ser humano é o último a surgir, após a água, o fogo, a terra e o ar. Essa ordem cosmogônica se reflete na prática ritual do Candomblé, onde cada gesto, cada cântico e cada oferenda reitera a interdependência entre todos os elementos da natureza. A filosofia que emana dessas tradições nos convida a compreender que a vida e o sonho são dimensões entrelaçadas, o real e o imaginário coexistem como expressões complementares da experiência humana.
O Candomblé do Recôncavo é resultado de séculos de resistência, reconstrução e sincretismo. As tradições Jeje, Congo-Angola e Ketu, ao se encontrarem em solo baiano, geraram uma tessitura cultural complexa, que se expandiu e incorporou elementos indígenas e católicos, formando o que hoje reconhecemos como identidade sincrética do Brasil afrodescendente. Essa confluência se manifesta nas casas de culto, nas festas, nas cores do barro, nas danças, nos cânticos e na arquitetura simbólica dos terreiros.
Para além de um registro histórico, Nações do Candomblé é um testemunho poético e filosófico da continuidade das tradições africanas em terras brasileiras. Aleluia nos convida a perceber o Candomblé como uma floresta simbólica, um organismo vivo, diverso e em permanente transformação, onde cada rito é uma folha e cada terreiro é uma árvore que resguarda a memória dos povos que sobreviveram à diáspora.
A publicação deste livro pela UFRB reafirma a vocação da universidade como território de diálogo, diversidade e reexistência. A obra integra um movimento mais amplo de reconhecimento dos saberes tradicionais como formas legítimas de produção de conhecimento, em sintonia com a política de extensão e cultura da instituição, que compreende a universidade como parte integrante dos territórios que a abrigam.
Agradecemos à Secretaria de Formação, Livro e Leitura do Ministério da Cultura, cujo investimento tornou possível a concretização desta iniciativa. Por meio do selo Anjo Negro, a UFRB reforça seu papel na construção de uma universidade plural, comprometida com a valorização das expressões afro-brasileiras e com a democratização do acesso à produção intelectual e artística.
Ao acolher Nações do Candomblé, a UFRB reafirma seu compromisso com a difusão das epistemologias negras e indígenas, com a memória viva dos terreiros e com o reconhecimento de que, no Brasil, pensar é também lembrar e cantar, porque toda sabedoria nasce do som, da terra e do corpo em movimento.