Livro J. Cunha

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Site dedicado ao livro J. Cunha & o Carnaval Negro

Panos

Zimbabwe

Para o carnaval do Bloco Ilê Aiyê de 1981, J. Cunha concebeu um padrão de tecido inspirado pelos símbolos oficiais do Zimbábue. A partir das imagens da bandeira e do escudo oficiais, Cunha reinterpretou elementos como lanças, escudos e animais. Uma característica marcante desta criação, que não havia aparecido em obras anteriores, é a inclusão de uma moldura formada por um padrão de búzios da costa. Os búzios são um elemento muito importante na cultura africana, porque eram utilizados como moeda e objetos de troca. Também considerados símbolos de poder dos grandes chefes, presentes em seus trajes e cetros. Além disso, Orixás também usam búzios como símbolo de riqueza.

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1981

Zimbabwe

1981

Congo

Em 1986, o foco da estamparia é o Congo-Brazzaville, região fortemente influenciada pela colonização belga. Os elementos gráficos são baseados em obras originais transcritas, destacando a ideia geométrica da região. J. Cunha denuncia a Bélgica, que assassinou grande parte da cultura do Congo. Essa perspectiva crítica de J. Cunha sobre a colonização e seus impactos culturais é essencial para entender a profundidade e a intencionalidade por trás de suas obras gráficas inspiradas no Congo. A arte criada não apenas celebra a rica herança cultural congolesa, mas alerta para os danos causados pela colonização e pela necessidade de restituição e reconhecimento.

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1986

Congo

1986

Nigéria

O trabalho de J. Cunha com os tecidos inspirados na Nigéria buscou ressignificar os desenhos tradicionais. A intenção era que eles pudessem ser cortados em qualquer área e ainda assim manter sua completude, refletindo a prática comum na Nigéria. As roupas tradicionais, como os torsos, usados principalmente por mulheres, e as batas, gorros, filás, calças, panos da costa e camisas usadas pelos homens, são feitas de uma única peça de tecido. J. Cunha observa que a herança nigeriana produziu uma “invasão” cultural positiva no Brasil, especialmente através dos tecidos e vestuários. Esse comércio de tecidos contribuiu para a formação da identidade cultural brasileira.

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1987

Nigéria

1987

Revolta dos Malês e dos Búzios

Os elementos gráficos inspirados utilizam símbolos como folhas e pombos pela sensação de movimento e liberdade, inclusive no contexto da quebra de correntes de opressão. Búzios são utilizados para confirmar o poder afro em debate e em guerra, refletindo uma espécie de redenção e sacrifício que permanece historicamente significativo. Também simbolizam a reedição do poder africano. Esse tecido comemorativo celebra a resistência e o impacto desses eventos na sociedade e utiliza quatro símbolos principais: a espada de Iansã, o machado de Xangô, o abebê de Oxum e Iemanjá, e as qualidades de Aparás, representando os Orixás de demanda.

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1991

Revolta dos Malês e dos Búzios

1991

América Negra

Este tecido é um profundo estudo sobre o ativismo dos direitos civis nos Estados Unidos. Cunha incluiu referências a figuras importantes das organizações da resistência como Mãe Hilda e Vovô do Ilê. O design destaca elementos como corrida, atletismo, música, jazz, e figuras significativas do ativismo, e um esquema de cores pensado para destacar melhor os elementos gráficos e transmitir a intensidade do tema. A homenagem à América Negra no tecido destaca a especificidade de cada luta e contexto cultural, sendo um reconhecimento das contribuições e sacrifícios dos ­afro-americanos na luta por direitos e igualdade, celebrando sua resistência e legado cultural.

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1993

América Negra

1993

Organizações da
Resistência

O tecido é concebido como uma grande narrativa visual, semelhante a um pano da costa completo, utilizando a estética e os elementos tradicionais encontrados em Benin. Esta abordagem destaca o movimento de resistência negra no Brasil, redesenhando a bandeira brasileira de uma maneira que enfatize a contribuição e a presença negra. Elementos do candomblé na bandeira brasileira simbolizam a resistência contínua e a afirmação da identidade afro-brasileira. Já a presença de figuras centrais como Zumbi dos Palmares reforça a narrativa de resistência e a luta contínua por reconhecimento e direitos.

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1995

Organizações da Resistência

1995

África: Ventre fértil do Mundo

O tema é uma homenagem abrangente a África, sem se limitar a um único país ou região, mas celebrando o continente africano negro como um todo. A proposta criativa envolveu a escrita direta e objetiva da palavra “África”, cujo significado é, por si só, extremamente poderoso e significativo. E a estética utilizada reflete linguagens características do continente. Há ainda a simbologia e as linguagens aplicadas à espiritualidade e aos ritos de vida e sobrevida. Muitas dessas ações e símbolos estão subjetivamente posicionados no trabalho, destacando a valorização humana, a fauna e a flora do continente africano.

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2001

África: Ventre Fértil do Mundo

2001

Malês: A Revolução

Uma estamparia política e histórica, destinada a documentar e celebrar a revolta dos Malês, uma das revoluções mais significativas da história ­afro-brasileira. Este tecido é concebido como um quadro a quadro, baseado em leituras e documentações, incluindo aspectos religiosos e acontecimentos marcantes relacionados à revolta. Cada quadro e elemento gráfico são cuidadosamente escolhidos para criar uma narrativa rica e complexa, embora não linear. O que permite ao tecido funcionar não apenas como uma peça de vestuário, mas como um documento visual que educa, celebra e preserva a rica herança e o espírito indomável dos Malês na história afro-brasileira.

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2002

Malês: A Revolução

2002

A Rota Dos Tambores no Maranhão

Esta estamparia celebra as culturas africanas e afro-indígenas do Maranhão, destacando a rica tradição de tambores e estandartes. O tecido foi desenhado de maneira a permitir cortes em qualquer parte, sem perder a continuidade do design. Os búzios foram encaixados de forma manual, garantindo que cada detalhe fosse preservado. Mais que uma estamparia, é um tributo visual à rica tapeçaria cultural do Maranhão. Combinando elementos de navegação, iconografia, festividades e tradições religiosas, o tecido celebra a diversidade e a profundidade das raízes africanas e afro-indígenas na região.

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2003

A Rota Dos Tambores

2003

Mãe Hilda Jitolu

O tecido inspirado em Mãe Hilda Jitolu, guardiã da fé das tradições africanas, é uma homenagem visual à sua vida e à sua contribuição cultural. Esta obra celebra a sabedoria e o legado de Dona Hilda, utilizando elementos gráficos que representam sua vida, sua família e seu envolvimento religioso e comunitário. O tecido incorpora elementos de sua história pessoal, suas práticas religiosas e sua contribuição cultural. A cabaça, um elemento recorrente nas cerimônias, é um símbolo de continuidade e tradição. Através de representações detalhadas, o tecido serve como uma homenagem duradoura à guardiã da fé das tradições africanas.

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2004

Mãe Hilda Jitolu

2004

Artigos

J.cunha &
o carnaval negro

Quero ficar com as novas gerações [...] Fazer da minha obra um grande livro para que todos possam abrir essas páginas e ver a quantidade de situações por mim evocadas ali para ser transformadas. No caso, a palavra arte é nesse sentido, conhecimento, força e raiz.

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Imagens para um
novo mundo

por Gil Maciel

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Criar formas para desvelar sentidos e recuperar tradições. Conversando sobre seu novo livro, J. Cunha fala de uma Arqueologia das Coisas, uma investigação do que guardam as formas, imaginadas por ele, e que durante duas décadas e meia, cobriram corpos e iluminaram ruas durante o Carnaval de Salvador, capital da Bahia.

O artista enfatiza duas dimensões dessas formas: a que resgata e apresenta o imaginário das tradições visuais afro-brasileiras e a que investiga a construção destas imagens, do ponto de vista da criação artística. Juntas, estas dimensões propõem num mesmo instante, encanto e aprendizado.

Encanto com a síntese que recria pessoas, fauna e flora, deuses e fatos históricos. Aprendizado com a descoberta, que se guarda na memória, do significado que estas imagens têm para o entendimento de quem somos, o que construímos e o nosso lugar Icone da câmera para mostrar uma imagem.

Estas formas e suas dimensões materializaram-se na estamparia que envolveu os corpos dos integrantes do Bloco Ilê Aiyê, seus adereços, alegorias e instrumentos musicais. Cunha resgatou e interpretou essas formas da tradição iconográfica afro-brasileira, “J. Cunha & O Carnaval Negro” resgata esta história. Enquanto foca no artista como designer gráfico Icone da câmera para mostrar uma imagem, contextualiza esse trabalho apresentando a multiplicidade deste criador que é também pintor Icone da câmera para mostrar uma imagem, gravurista, bailarino, cenógrafo, figurinista.

Na apresentação da obra contamos a trajetória do artista, as experiências, trabalhos, viagens e encontros que constituíram seu imaginário Icone da câmera para mostrar uma imagem, numa relação dialética de vida-obra, da qual resultam as imagens que ele concebe. E de como, esse trabalho se insere na história da arte e do design brasileiros Icone da câmera para mostrar uma imagem.

Em seguida, temos a extensa pesquisa que recupera a iconografia das estampas e demais elementos gráficos de 26 Carnavais do Bloco Ilê Aiyê, entre 1980 e 2005. Com destaque, logo no início, para o processo de criação e os sentidos estéticos e espirituais do icônico logotipo Máscara Jitolú Icone da câmera para mostrar uma imagem, símbolo máximo do Carnaval do Ilê Ayê.

A cada ano, um tema do Carnaval do Ilê. A cada tema, um conjunto de ícones, desenhados por Cunha, articula narrativas visuais, reconta histórias de países africanos, de tradições afro-brasileiras, de personalidades e de fatos históricos que impactam a percepção de quem somos hoje.

Apresentando outros sentidos e recuperando tradições, as imagens de Cunha eram resultado de um processo político coletivo dentro do Ilê Icone da câmera para mostrar uma imagem, envolvendo intelectuais, músicos, compositores e pedagogos.

Nas páginas do livro, estão toda essa opulência de formas, cores e narrativas visuais, articuladas com fotos históricas, tanto do artista quanto dos carnavais que ele ajudou a criar. Esse imenso resgate é seguido pela apresentação de elementos de Iconografia, um inventário de ícones que ele criou e articulou ao longo de décadas: animais, máscaras, instrumentos sagrados e o marcante alfabeto produzido para o bloco Icone da câmera para mostrar uma imagem.

O posfácio esclarece o impacto estético e político do trabalho de Cunha na criação da identidade do Bloco Ilê Aiyê.

A história e os grandes acontecimentos da trajetória de vida de J. Cunha são detalhados em sua Biografia e Linha do Tempo, repletas de fotos inéditas do artista Icone da câmera para mostrar uma imagem.

Por fim, um anexo no formato de brochura apresenta textos históricos e críticos que articulam o trabalho de cunha em contexto mais amplos da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, como é o caso dos Cadernos Pedagógicos Icone da câmera para mostrar uma imagem, uma coleção de textos paradidáticos que ele Ilustrou.

Gil Maciel é Jornalista, designer e doutor em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

J. Cunha e o Carnaval Negro

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por Danillo Barata

A história de J. Cunha pode ser vista como um mergulho profundo na identidade afro-indígena e no Pan-Africanismo. O artista cultiva os valores intrínsecos da cultura negra, especificamente da etnia Bantu, fruto do seu avô Badú. Descende, também, de uma linhagem da família dos povos indígenas Kiriri, do sertão da Bahia. Essa etnia é uma grande porção de sua herança, juntamente com a influência de seu pai, um cigano estrangeiro nascido na Armênia e trazido ao Brasil ainda criança devido à perseguição desse grupo na Europa.

As culturas negra, indígena e cigana, historicamente marginalizadas, carregam consigo uma riqueza de tradições e saberes que resistem ao apagamento. J. Cunha, reconhecendo a profundidade dessas heranças, utiliza-as como alicerces fundamentais em seus estudos sobre símbolos, signos e arquétipos. Essas categorias, que ele interliga com a semiologia e a antropologia, são essenciais para compreender a complexidade de sua obra. Sua abordagem não é apenas teórica, mas também uma prática que reitera a importância de reconhecer e valorizar essas culturas em um contexto contemporâneo.

A base teórica e cultural que J. Cunha constrói, enraizada nas tradições negras, indígenas e ciganas, sustenta uma produção artística rica e multifacetada. Ele vê seu trabalho como um corpus que deve ser estudado e apreciado por sua profundidade e significado. A arte de Cunha não é apenas uma expressão estética, mas um testemunho vivo da resistência e da resiliência dessas culturas, que propõe uma leitura crítica e engajada da realidade brasileira.

Para o autor, além do aspecto lúdico e da criação artística pela arte, há uma necessidade de traduzir essas influências em uma forma de arte contemporânea brasileira. Seu trabalho não é apenas uma expressão pessoal, mas também uma contribuição para a compreensão e valorização das complexas identidades culturais no Brasil.

J. Cunha nasceu em uma área chamada Ponta de Humaitá, situada na Baía de Todos os Santos, em Salvador. Desde cedo, ele começou a perceber o mundo através do mar, que sempre considerou uma fonte de inspiração e um elemento sagrado. Aos dez anos, Cunha já desenhava e pintava em conchas do mar, vendendo essas peças para ganhar algum dinheiro nas praias da Boa Viagem e da Ribeira. Esse interesse pela arte continuou a crescer, e ele passou a usar tinta a óleo e frequentar diversas escolas livres, onde sempre foi reconhecido como um promissor desenhista. A revista “O Cruzeiro” foi uma fonte de inspiração constante durante sua infância, ao apresentar trabalhos de renomados artistas como Portinari, Di Cavalcante, Djanira, Anita Malfati, Tarsila do Amaral e Volpi. Essas influências visuais alimentaram seu desejo de se dedicar às artes.

Foi no Senai, onde cursou tornearia mecânica, que surgiu a oportunidade de ingressar na Escola de Belas Artes para um curso livre de pintura. Os professores reconheceram sua habilidade e desenvoltura no desenho técnico e recomendaram que ele se matriculasse nos cursos livres. Na Escola de Belas Artes e na efervescente Universidade Federal da Bahia, ele se envolveu profundamente com diversas formas de arte, incluindo música, teatro, dança e cenografia. Entre os anos de 1962 e 1964, Cunha começou a trabalhar com cenografia e aprendeu a criar figurinos para dança e teatro, além de colorir tecidos.

Participar da Bienal de São Paulo foi um momento decisivo para Cunha. Lá, ele se deparou com as novas tendências artísticas dos anos 1960, como a Nova Figuração, pop-art e op-art. Esse contato ampliou sua visão artística e cultural, proporcionando um choque cultural significativo ao sair de Salvador e explorar a arte internacional.

Nesse período, surgiu a geração “­pós-A15” e consequentemente uma crise nas artes; não existiam mais os salões, e as galerias padeciam com as dificuldades no Estado da Bahia. Surge, então, o Etsedron, idealizado por Edison da Luz, Matilde Matos, J. Cunha, Márcio Meirelles e Lia Robatto. O projeto “tomou um grande porte ao participar de 3 edições da Bienal de São Paulo (1973/75 e 77), ganhando, em uma delas, o Grande Prêmio Governador do Estado de São Paulo [...] E também provoca grande comoção na sua participação na XIII Bienal Internacional de São Paulo” segundo a própria Matilde (MATOS, Matilde, 2001). O Etsedrom finalizou suas atividades como grupo em 1978 na I Bienal Sul-Americana de Arte. O Etsedron, sem dúvidas, foi o primeiro movimento a romper e criticar as normas artísticas vigentes; possuía um tom crítico e uma obra provocadora e muito potente. Como seu nome mesmo dizia, era o Nordeste ao Contrário.

Viva Bahia

Durante a ditadura militar, Cunha encontrou limitações para viajar como artista plástico, então se tornou bailarino e integrou grupos culturais que representavam o Brasil no exterior. Trabalhando com Emília Biancardi, uma figura icônica em Salvador, ele teve a oportunidade de viajar, conhecer museus internacionais e estabelecer contatos com artistas de outros países. Essa experiência fortaleceu sua determinação de continuar na carreira artística, sempre com foco na pintura e na arte em geral.

Era um período de efervescência cultural, com grupos como o Viva Bahia lotando o Teatro Castro Alves, graças ao experimentalismo e à inovação trazidos por Emília Biancardi e pelo próprio J. Cunha. Essa inovação incluía o uso de materiais inusitados e a busca por uma modernidade que fugia das representações tradicionais da cultura popular.

Naquela época, J. Cunha frequentava a Escola de Belas Artes, onde o Prof. Juarez Paraíso comandava o núcleo de criação do Carnaval de Salvador. Graças à influência de Juarez, Cunha foi convidado a integrar o grupo de decoração do Carnaval nos anos 1970. Inicialmente, sua participação envolvia a ornamentação das principais ruas centrais de Salvador, como a Rua Chile e o Campo Grande. A juventude da época, incluindo J. Cunha, estava envolvida com a dança e a decoração do carnaval, formando um grupo de cerca de 20 a 30 jovens.

Cunha também se aprofundou na antropologia e semiologia, estudando símbolos e arquétipos relacionados às culturas negra, indígena e cigana. Ele enfatizou a importância dessas influências em seu trabalho, utilizando-as para criar uma obra de arte que refletisse a diversidade étnica e cultural do Brasil.

As influências do Cinema Novo de Glauber Rocha, do movimento tropicalista e da obra de Euclides da Cunha foram fundamentais. A sua produção reflete a importância da leitura e entendimento de “Os Sertões” para a sua tradução da história de Canudos, especialmente na produção de sua primeira exposição individual no Museu de Arte Moderna da Bahia chamada “Sertão e Luz”, em 1976, e como essa leitura influenciou sua percepção do nordeste brasileiro.

As viagens de Cunha com o grupo folclórico Viva Bahia, criado pela etnomusicóloga Emília Biancardi, desempenharam um papel crucial em sua formação artística. Essas viagens não foram meramente excursões culturais, mas sim jornadas de descoberta que expandiram seus horizontes e aprofundaram seu entendimento das culturas afro-latino-americanas e africanas. Na América Latina, Cunha teve contato com o muralismo mexicano, um movimento artístico que utilizava grandes murais para abordar temas sociais e políticos com um pano de fundo marxista. Esta influência foi particularmente significativa, pois proporcionou a Cunha uma nova linguagem visual para expressar as narrativas épicas do sertão nordestino.

Além disso, as viagens à África fortaleceram seu sentimento de pertencimento ao sul geopolítico e enriqueceram sua paleta cultural. A conexão com os indígenas Kuna do Panamá, por exemplo, desenvolveu sua relação com a ancestralidade Kiriri herdada de sua mãe. Esta ligação foi expressa através de linhas e formas que remetem aos padrões e símbolos tradicionais indígenas. A imersão nas culturas africanas, por sua vez, forneceu a base para a identidade visual do carnaval de Salvador e do Bloco Afro Ilê Aiyê. Essa “reafricanização” do carnaval baiano firmou a afro-baianidade como a expressão mais legítima das políticas culturais de pertença, permitindo a Cunha ocupar a cidade com as manifestações culturais mais autênticas e genuínas.

Melô do banzo

J. Cunha observava outros grupos e blocos, como o Melô do Banzo, onde participou na ala de dança. A explosão dos afoxés, como o Badauê, foi um marco importante. J. Cunha destacava o papel crucial do carnaval popular negro da Bahia e o carnaval turístico da classe média branca. A prefeitura e a Bahiatursa começaram a fomentar essas iniciativas, concedendo espaços para ensaios e promovendo o carnaval. Destacava-se também a influência de Gilberto Gil como embaixador da animação carnavalesca baiana e incentivador dos Afoxés e Blocos Afros.

Quilombo dos negros de luz

No final dos anos de 1970, J. Cunha começou a frequentar os ensaios da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê. A agremiação desempenhava um papel determinante na revitalização da herança cultural africana no Brasil. Anualmente, durante o carnaval, suas estamparias e trajes eram exibidos como exemplos vívidos da reinvenção dos valores africanos na modernidade. Os seus ensaios ocorriam em terrenos baldios na cidade devido à falta de uma sede própria. Um desses ensaios, próximo à casa de Cunha na Boca do Rio, foi fundamental para sua inserção no grupo, onde foi convidado por Carlinhos Bamba, um jovem dançarino, para se aproximar e colaborar com eles.

Em “Ilê Aiyê – ‘O Quilombo dos Negros de Luz’”, de Jônatas Conceição, o pesquisador sistematiza a história do Ilê Aiyê, fundado na década de 1970 em Salvador, Bahia, como o primeiro bloco afro do Brasil. O autor descreve a formação e evolução do Ilê Aiyê, enfatizando seu papel como um quilombo contemporâneo que promove a cultura africana e combate o racismo. O Ilê Aiyê é retratado como um espaço de resistência e de valorização da identidade afro-brasileira, utilizando a música e a arte como ferramentas para enfrentar a discriminação racial.

Tal pesquisa explora a participação da população de origem africana nos carnavais de Salvador ao mostrar como, historicamente, os negros sempre buscaram afirmar sua cultura, mesmo diante de uma sociedade segregacionista. A trajetória do Ilê Aiyê é apresentada em detalhes, destacando suas iniciativas culturais, educacionais e políticas. O bloco é reconhecido por suas canções que exaltam a herança africana e por seu compromisso com a educação através do Projeto de Extensão Pedagógica e dos Cadernos de Educação do Ilê Aiyê.

Discute, também, a importância da música para o Ilê Aiyê quando cita como as composições do bloco servem para desmascarar a falácia da democracia racial brasileira. As canções são apresentadas como um meio profundo de expressão cultural, identidade e resistência que consolidam o Ilê Aiyê como um influente ator político e educacional na luta contra o racismo. A seção conclui que o Ilê Aiyê, ao longo de sua existência, tem sido fundamental para a conscientização e mobilização da população negra, perpetuando o legado de Palmares e outros quilombos históricos.

A missão do Ilê Aiyê se alinha com as ideias de resistência cultural e política discutidas por teóricos como Stuart Hall. Hall argumenta que a cultura é um campo de luta e resistência, onde as identidades são constantemente negociadas e reconfiguradas. Assim, o Ilê Aiyê, através de suas atividades culturais e pedagógicas, se posiciona como um espaço de resistência, desafia as narrativas hegemônicas e promove uma identidade ­afro-brasileira positiva e empoderada. Como destaca Abdias do Nascimento (1980), “a Bahia é um dos maiores legados africanos nas Américas”.

Angola

Em sua viagem a Angola, em 1983, Cunha pôde pisar no solo de seus ancestrais e estabelecer uma conexão com a cultura africana. Ele participou de várias manifestações culturais e artísticas no Brasil, especialmente com o grupo Ilê Aiyê, onde trabalhou com ritmos, cores e símbolos africanos. Cunha se dedicou a transportar essas influências para o Brasil, utilizando-as em sua arte para promover uma maior conscientização sobre a herança africana no país.

Cunha foi bem recebido por Mãe Hilda Jitolu e sua família, sendo chamado carinhosamente de “filho de Ogum”. Ele iniciou seu trabalho no Ilê Aiyê ao projetar o carro alegórico em homenagem a Obatalá e Odudua. O trabalho foi bem recebido pela comunidade e pelos críticos e reforçou sua decisão de permanecer no grupo.

A inserção de J. Cunha no Ilê Aiyê foi marcada por sua contribuição estética e artística, ao adaptar elementos da dança e da cenografia para os figurinos e alegorias do bloco. Ele destaca a importância da colaboração com Dete Lima e a troca de experiências que enriqueceram seu trabalho. A narrativa de J. Cunha revela a trajetória de um jovem artista à época que encontrou no carnaval uma forma de expressão, de identidade e que contribuiu significativamente para a cultura popular baiana.

Para Jussara Nascimento, o reconhecimento de que as estamparias do Ilê Aiyê expressam uma complexa criação artística produzida coletivamente é essencial para compreender a riqueza e a profundidade de sua produção cultural contemporânea. As estamparias são portadoras de mensagens culturais plurissignificativas, sendo fruto de um laborioso processo de pesquisa temática e de uma elaboração estética que dialoga com a ancestralidade africana e a contemporaneidade baiana.

Uma das contribuições mais significativas de J. Cunha ao Ilê Aiyê foi a criação de uma identidade visual coesa e poderosa para o bloco. Ele utilizou uma paleta de cores específica — amarelo, vermelho, preto e branco — cada uma com seu significado simbólico. O amarelo representava Oxum, o ouro, a luz e a clarividência; o preto valorizava a pele negra; o branco estava associado à religião e a Oxalá e o vermelho simbolizava a paixão, a alegria, o sangue e o sacrifício.

A máscara de Jitolu, criada por Cunha, se tornou um símbolo icônico do Ilê Aiyê. Inspirada na aparência de Omolu e nos ideais de conduta e ancestralidade, a máscara se tornou um elemento gráfico significativo que ajudou a afirmar a identidade visual do bloco. Esta criação gráfica foi fundamental para a construção de uma narrativa visual que refletia a história e a cultura afro-brasileiras.

O trabalho de J. Cunha como artista plástico, cenógrafo e figurinista ao longo de 25 anos no Ilê Aiyê teve um impacto significativo, levando suas obras a serem reconhecidas em diversos países. Ele acredita que seu trabalho ajudou a renovar a questão africana no Brasil, tornando-se uma referência importante para o estudo do comportamento da população negra em relação à dança, música e artes plásticas no contexto do carnaval. Sua produção se irmana profundamente e se entrelaça com os princípios do Pan-Africanismo. Através de sua arte e de suas práticas culturais, valorizaram a herança africana e a resistência contra o racismo e a marginalização. Em seu livro “The Souls of Black Folk” (1996), Du Bois introduziu o conceito de “dupla consciência”, descrevendo a sensação de ser negro em um mundo dominado por brancos. Ele argumentava que a emancipação dos africanos só poderia ser alcançada através da unidade e da solidariedade entre todos os povos de ascendência africana. Du Bois foi um dos organizadores das Conferências Pan-Africanas subsequentes, que se tornaram plataformas importantes para discutir questões de racismo, colonialismo e direitos civis. O legado de Cunha e do Ilê Aiyê continua a inspirar novas gerações, mostrando como a arte e a cultura podem ser usadas para promover a unidade, a solidariedade e a emancipação dos povos de ascendência africana. Em Imagens Negras: ancestralidade, diversidade e educação, Maria de Lourdes Siqueira discute a resistência dos africanos e seus descendentes contra a opressão e a discriminação, enfatizando a importância da preservação das tradições culturais como forma de identidade e resistência. Trata-se de uma obra de fôlego que examina uma contribuição valiosa para o estudo das interações culturais no Brasil, e destaca a vitalidade e a resiliência das culturas africanas na formação da identidade nacional brasileira.

A produção artística reflete uma profunda compreensão e aplicação dos princípios discutidos por Frutiger em “Sinais e Símbolos.” A partir de tais princípios, J. Cunha utilizou símbolos e cores de maneira a comunicar a identidade cultural e a herança afro-brasileira de forma clara e impactante. Frutiger destaca a importância da simplicidade e da clareza na criação de signos eficazes. Para ele, a eficácia de desse tipo de imagem reside em sua capacidade de ser imediatamente reconhecível e compreensível, independente do contexto cultural do observador.

J. Cunha realizou nessa época a confecção dos cartazes dos afoxés e as alegorias para os Apaches do Tororó, o Cacique e os Tupi, observando que esses grupos não eram fechados e se abriam para ensaios públicos. Jovem, vivendo naquele meio cultural, envolvido com dança, ele que tinha essa liberdade de acesso e circulação. Essa situação intensificou-se à medida em que ele se envolvia mais com os afoxés e outros blocos.

Nesse contexto dinâmico, o artista começou a frequentar esses espaços periféricos e trazer à prática uma nova dinâmica em seu carnaval. Havia uma preocupação com a segurança, especialmente durante a ditadura, quando a polícia frequentemente reprimia essas manifestações. J. Cunha e seus contemporâneos andavam em grupos, sempre atentos às possíveis intervenções policiais.

Pan-Africanismo

O trabalho de J. Cunha no Ilê Aiyê exemplifica como os princípios do Pan-Africanismo podem ser aplicados na prática artística e cultural. Ele utilizou sua arte para promover a valorização da cultura afro-brasileira e para criar uma narrativa visual que conectasse a comunidade local com suas raízes africanas. Esta abordagem reflete as ideias de W.E.B. Du Bois sobre a importância da dupla consciência e da solidariedade entre os povos de ascendência africana.

Além disso, a viagem de Cunha à África e suas experiências com culturas africanas influenciaram diretamente seu trabalho. A conexão com os índios Kuna do Panamá, o muralismo mexicano e as tradições africanas se fundiram em sua obra, criando uma síntese única que refletia a diversidade e a riqueza da herança afro-brasileira. Essa interdisciplinaridade e interculturalidade são centrais ao ­Pan-Africanismo, que promove a troca de conhecimentos e a solidariedade entre diferentes culturas africanas e afrodescendentes.

A relação inicial de J. Cunha com a família de Mãe Hilda Jitolu foi marcada por um profundo respeito e acolhimento. Ele destaca a importância de reconhecer e traduzir os códigos e simbologias do terreiro, e como essa experiência influenciou seu trabalho artístico. Cores, acessórios e qualidades dos orixás; costumes sagrados, ideais de conduta e danças: tudo era inspiração para J. Cunha.

A produção dos carros alegóricos e figurinos no Ilê Aiyê era feita de forma colaborativa, sem patrocinadores ou apoio estatal. J. Cunha destaca o esforço heroico de transportar símbolos e sinais da África para a Bahia, contribuindo para a valorização da cultura negra.

Gui Bonsiepe critica a excessiva formalização no design, uma “metodolatria” que substitui uma irracionalidade por outra. Cunha, com seu background diverso e abordagem intuitiva, desafiou essa formalização. Ele criou uma identidade visual forte para o Ilê Aiyê, utilizando cores e símbolos profundamente enraizados nas tradições africanas. Este trabalho não apenas valorizou a cultura afro-brasileira, mas também trouxe uma nova perspectiva estética ao carnaval de Salvador.

África no Brasil

A palavra e a forma pintadas abordam todas as questões que, em essência, remetem ao Brasil. A partir desse ponto, o artista passou a compreender a relação de sua etnia, especialmente em relação a Angola. Ele relatou a experiência de visitar o país, onde pôde pisar no solo de onde vieram seus ancestrais, especificamente na região do Rio Kwanzaa, no Kwanzaa Norte. Essas experiências simbólicas e históricas foram profundamente marcantes para ele, proporcionando um sentimento de localização pessoal e humana. Ele enfatizou a enorme importância antropológica e a valorização dos conhecimentos adquiridos dessa experiência.

Desse modo, começou a desenvolver sua própria “antropologia popular” sobre a África, exatamente nesse contexto de atuação no Ilê Aiyê, através de manifestações carnavalescas com o objetivo de identificar a África no Brasil. A influência da cor da pele, dos ritmos musicais e das tradições culturais sempre estiveram presentes nos seus interesses de pesquisa.

Destaca-se a importância das percussões africanas, que J. Cunha conheceu por meio do Ilê Aiyê e dos Filhos de Gandhy. Nos anos 1980, ele foi um dos primeiros jovens a se apresentar nesses grupos, unindo ritmos e cores simbólicas, que possuem significados filosóficos profundos.

J. Cunha começa a transportar essa linguagem arquetípica africana para o Brasil, notando que nenhuma escola de arte à época se interessava por essa abordagem em seus currículos. Sistematiza os seus estudos para sua compreensão da arte africana e sua importante contribuição à história da arte ocidental, especialmente nas interseccionalidades diaspóricas.

Cunha ressalta o poder que possui um artista clássico de influenciar e transformar a sociedade por meio de sua arte. Durante 25 anos, ele conseguiu engajar anualmente cerca de 3 mil pessoas com os símbolos e cores politicamente significativas do Ilê Aiyê. Este impacto contínuo possibilitou que suas obras fossem reconhecidas e espalhadas por meio de fotografias e filmes pelo mundo. Ele acredita que este tipo de arte, direcionada ao público e presente nas ruas, tem um poder inigualável de transformação e conscientização, ao contrário de trabalhos restritos a galerias e festivais.

Tapeçaria afro-brasileira

Na trajetória de J. Cunha, a rica tapeçaria da expressão cultural afro-brasileira ganha destaque por meio de suas obras. Ao longo dos anos, sua arte investiga a interseção entre cultura e identidade, destacando como suas criações se tornaram um meio vital para preservar e transmitir tradições africanas no contexto brasileiro. J. Cunha oferece uma exploração detalhada de técnicas artísticas, simbolismos e significados culturais, demonstrando a importância de sua obra não apenas como expressão estética, mas também como ferramenta de resistência e afirmação da identidade afro-brasileira. O Ilê Aiyê, através de suas atividades culturais e educativas, continua a promover os ideais pan-africanistas. O bloco oferece programas de educação e conscientização que destacam a importância da história e da cultura africanas na formação da identidade brasileira. Através de suas performances, o Ilê Aiyê celebra a resistência e a resiliência da comunidade negra, promovendo uma visão de empoderamento e emancipação.

Desse modo, seu trabalho visual e artístico não apenas enriqueceu as celebrações do carnaval, mas também fortaleceu a mensagem de unidade e solidariedade do bloco. A interseccionalidade entre a trajetória de Cunha e o histórico do Ilê Aiyê revela a contribuição essencial para a compreensão da complexa tapeçaria que compõe a identidade do povo brasileiro, com destaque para a profunda influência africana na construção da nação. Em A Família de Santo nos Candomblés Jeje-Nagôs, Vivaldo da Costa Lima oferece uma análise profunda das dinâmicas sociais e espirituais nas casas de candomblé, destacando a organização interna das famílias de santo e a preservação de tradições africanas no Brasil. A obra examina como essas práticas religiosas contribuíram para a formação de redes de solidariedade e resistência dentro das comunidades afro-brasileiras, sendo fundamentais na preservação da identidade cultural africana. O autor examina o impacto cultural, social e econômico dos africanos trazidos para o Brasil durante o período colonial. Vivaldo destaca a riqueza das tradições, conhecimentos e práticas trazidas pelos africanos, que foram fundamentais na construção da sociedade brasileira. A obra aborda a diversidade das etnias africanas, suas interações com outras culturas presentes no Brasil e como essas dinâmicas moldaram a cultura afro-brasileira contemporânea. Nela, têm destaque a resistência cultural e as estratégias de sobrevivência utilizadas pelos africanos e seus descendentes para preservar suas identidades e heranças culturais.

A habilidade de trabalhar com materiais diversos, incluindo aço e tecnologia de laser, permitiu que Cunha criasse obras duradouras que homenageiam a cultura africana e os terreiros de candomblé. Ele considera esse privilégio uma forma de conscientizar a matéria, atribuindo grande significado simbólico ao ferro e ao aço, materiais que têm relação com sua herança africana e o orixá Ogum, o pai da tecnologia.

Para Cunha, o processo artístico é contínuo e envolve uma constante renovação e exploração de novos materiais e técnicas. Ele se empenha em criar obras que não apenas expressem sua arte, mas também sirvam como um legado de conhecimento e inspiração para as futuras gerações.

Fundamentos do design afro-baiano

A interdisciplinaridade presente na formação de Cunha é um aspecto decisivo de sua trajetória. Ele não se limitou a uma única forma de expressão artística, mas explorou uma ampla gama de mídias e técnicas, incluindo pintura, escultura, design gráfico e cenografia. Esta abordagem interdisciplinar permitiu-lhe transcender as fronteiras tradicionais entre as disciplinas artísticas e criar uma obra que é ao mesmo tempo sofisticada e diversa.

A trajetória artística e intelectual de J. Cunha se revela como uma odisseia profunda pelas entranhas da identidade cultural afro-brasileira e das múltiplas influências que a compõem. Sua obra, enraizada no Pan-Africanismo, emerge como um baluarte de resistência e afirmação das heranças Bantu e indígenas, permeadas pelas influências ciganas. Cunha, ao irmanar-se ao Ilê Aiyê, não apenas celebra, mas recontextualiza as tradições africanas através de uma lente contemporânea, firmando a afro-baianidade como expressão legítima das políticas culturais de pertencimento. Sua capacidade de mesclar os ritmos dos tambores com as cores vibrantes de seus figurinos e alegorias, simbolizando divindades e ancestrais, traduz uma narrativa visual que dialoga com as profundas raízes históricas e sociais do Brasil.

Ademais, a contribuição estética e simbólica de Cunha para o Carnaval de Salvador reflete uma interseccionalidade sofisticada e complexa, onde a arte transcende o mero deleite estético e se torna um instrumento de conscientização e transformação social. Através da criação de identidades visuais coesas para os blocos afros e a utilização de materiais contemporâneos, ele perpetua a narrativa da resistência cultural e da reinvenção das tradições. Sua obra, por meio da junção de elementos arquetípicos africanos e da antropologia, configura-se como um legado vivente que inspira e educa futuras gerações sobre a importância da preservação das culturas marginalizadas. Nas palavras de Cunha, seu trabalho é um “grande livro” aberto, onde cada página revela uma nova dimensão da luta e da celebração das identidades negras, ecoando o pulsar ancestral dos tambores que embalam os carnavais da Bahia.

A arte, em sua perspectiva, é um amálgama de conhecimento, força e ancestralidade, refletindo sua jornada pessoal e espiritual.

Editor-curador do livro J. Cunha e o Carnaval negro, Danillo Barata é artista, pesquisador e Professor Associado do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), onde exerceu o cargo de Diretor de 2013 a 2023. É Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e licenciado em Desenho e Plástica pela mesma instituição. É Pró-reitor de Extensão e Cultura (PROEXC) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Os 50 anos do Ilê Aiyê e a arte de J. Cunha

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por João Jorge Santos Rodrigues

O artista baiano J. Cunha é um personagem central dos últimos 50 anos de criatividade afrobrasileira. Intenso e com formas inovadoras, J. Cunha deu para o carnaval baiano um conjunto de imagens representativas que se tornaram a sua marca registrada.

Para além das fantasias do bloco afro Ilê Aiyê, o artista nos orgulha com obras em diversas linguagens artísticas, que expressam a pluralidade africana em um diálogo entre o tradicional e o contemporâneo. Os traços da arte de J. Cunha impregnaram a maioria dos grupos afro do carnaval de Salvador. Nas cores, nas expressões e no significado para a memória dos afrobrasileiros, a arte do jovem Cunha nos deu uma boa visão de lugares da África como Zimbabué, Camarões, Mali, Gana, Senegal e Angola.

Ao comemorar 50 anos de fundação com uma presença marcante no carnaval, o Ilê Aiyê é presenteado com este trabalho tão interessante, bonito e diverso do artista. Um valioso registro de sua história, no que diz respeito à arte, à cultura e à estética fundadora de um novo movimento negro no Brasil. Movimento este que caminhou através de traços de tecido de roupa, de trança de cabelo, de destaque da beleza e da identidade. Esta tarefa não é nada fácil em um país onde a colonização europeia quase destruiu a ideia de ser negro, de conhecermos a nossa origem africana. Então, de certa forma, o conteúdo deste livro traz de volta a nossa percepção de como devemos e podemos ser descendentes de africanos, com orgulho e com conhecimento de causa de nossos anseios na sociedade brasileira. Assim, a obra difunde, valoriza e preserva a memória da cultura afrobrasileira e o nosso rico patrimônio.

Importante frisar que o conteúdo deste livro sobre o Ilê traz também registros significativos da cultura negra global, a partir de detalhes dos enredos de carnavais expressos nos desenhos da construção de Cunha, para que essa arte fale de povos africanos, de culturas africanas e de lugares da África. Esse acervo ensina aos afro baianos sobre a grandeza dos países e dos povos africanos e de como isso está relacionado com a liberdade, com a cidade de Salvador, com a Bahia, com o Brasil. Essa conexão histórica e antropológica é fundamental para entendermos o momento hoje, 2024, e o papel dessas atividades.

Nossa eterna gratidão a esta instituição e também à contribuição generosa do artista J. Cunha, que tem oferecido tudo de si para educar e civilizar nossa gente.Sejam bem-vindos à Casa das Artes e da Cultura Afro Brasileira, sejam bem-vindos ao Ilê Aiyê nos seus 50 anos, sejam bem-vindos à nossa negritude ancestral.

João Jorge Santos Rodrigues é um destacado advogado, produtor cultural e ativista do movimento negro brasileiro. Como um dos fundadores e presidente do bloco afro Olodum, João Jorge desempenhou um papel crucial na promoção da cultura afro-brasileira e na luta contra o racismo. Em março de 2023, assumiu a presidência da Fundação Cultural Palmares, instituição dedicada à preservação e promoção da cultura afro-brasileira.

Biografia

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por José Antônio Cunha

José Antônio Cunha nasceu na Ponta de Humaitá, na Península de Itapagipe, em Salvador (Bahia), em 1948. Descendente de bantos africanos e de índios kiriris, filho de mãe sertaneja de Canudos e de pai descendente de ciganos da Armênia, todas essas territorialidades afetivas estão impressas em sua obra.

Iniciou seus estudos aos dezoito anos no curso livre da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. É um artista de múltiplas possibilidades que atua como artista plástico, figurinista, cenógrafo e designer. Isso dá para sua obra uma gama de atuação como pinturas, objetos, ilustrações, estampas para tecidos, cartazes, capas de discos, figurinos, cenários e instalações.

Participou de importantes bienais de artes plásticas e de exposições individuais e coletivas, entre elas o evento “The Refugee Project”, no Museu de Arte Africana de Nova York, “Exposição de Arte Contemporânea: As Portas do Mundo” na Europa e na África, “Exposição coletiva Axé Bahia: O poder da arte numa metrópole afro-brasileira” no Museu Fowler, em Los Angeles, e da “Exposição Coletiva Histórias Afro-Atlânticas”, no Instituto Tomie Ohtake e no MASP. Em 2023, o Museu de Arte Moderna da Bahia realizou uma grande retrospectiva individual de sua obra com a Exposição “Uanga”.

Em 2024, nos seus 60 anos de carreira, a Pinacoteca apresentou uma retrospectiva, a maior já realizada em sua carreira. Com cerca de 300 itens, entre pinturas, desenhos, cartazes, estampas, objetos e documentos, “J. Cunha: Corpo tropical” apresenta a trajetória do artista, acompanhando seus percursos pela Bahia e sua projeção nacional e internacional. A mostra enfatizou o caráter experimental, a diversidade das linguagens e o compromisso político do artista e de sua obra.

Seu trabalho se caracteriza pelo mergulho no imaginário das culturas afro-indígenas e popular nordestina brasileira, através da pesquisa, assimilação e transformação num universo próprio, mítico e mágico, simbólico e intuitivo.

Autor de inúmeras marcas e logotipos, ilustrações para livros e capas de discos, estamparias, ambientações de shows e eventos, J. Cunha tem ainda o seu nome definitivamente vinculado ao carnaval, por haver criado e assinado a concepção visual e estética do bloco Ilê Aiyê durante 25 anos, além de instigantes decorações temáticas para o carnaval de rua de Salvador.

No campo do design participou entre outras importantes mostras da Bienal Internacional de “Design de Saint Étienne” – França e também da exposição “Design Brasileiro – Fronteiras 2009” no Museu de Arte Moderna de São Paulo-Brasil.

Para o antropólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Kabengele Munanga, a obra de J. Cunha é uma forma de entender e interpretar o mundo e a sociedade em que vive. “As cores vivas, as linhas retas, curvas, círculos, espirais gráficos, zigue-zagues, formas geométricas, enfim, todas as imagens que atravessam a arte de J. Cunha trazem além do estético, mensagens humanas, sociais, educativas, históricas e políticas; o que o projeta no tempo histórico e no espaço físico e social do mundo e da sociedade à qual pertence”. (Munanga, Kabengele. Um encontro com o artista. In: Barata, Danillo. O Universo de J. Cunha. Salvador: Corrupio, 2006)

Em seu livro O Universo de J. Cunha publicado em 2016 pela editora Corrupio, com curadoria editorial do Prof. Danillo Barata, foi reunido e estruturado um conjunto de obras que tentam dar conta da forma como a arte de Cunha se apropria de diversos territórios afetivos como o indígena, o africano, o modernismo, o sertão e o tropicalismo. Para Barata, em um universo povoado de índios, caboclos, ciganas, rainhas e reis africanos, Cunha utiliza de dispositivos tradicionais e contemporâneos e se mostra um criador sem limites.

Para o historiador da arte Roberto Conduru, da Southern Methodist University, a obra de J. Cunha amplia a noção de arte popular e é parte do processo histórico que culmina nas experimentações artísticas da Bahia atual. Conduru diz que Cunha trabalha com uma abundância de signos com os quais discute tópicos sociais e questões políticas, que explora com muitas cores e uma luminosidade intensa. “Ao desdobrar a pintura em objetos de tipos diversos e com várias finalidades, Cunha ultrapassou divisas, borrou as fronteiras entre os domínios de atuação”. O que mostra sua versatilidade em elaborar de capas de discos a cenários de espetáculos de dança, sempre deixando sua marca autoral.

Artista visual, José Antônio Cunha (J. Cunha) possui uma carreira de mais de seis décadas, produzindo pinturas, desenhos e esculturas. Como designer, projeta estampas, ícones, pictos, tipografias e outros elementos do design gráfico. É ainda figurinista e cenógrafo.

Cronologia

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por Nadja Vladi

1948

Nasce na Ponta de Humaitá, na Península de Itapagipe, em Salvador, Bahia, José Antônio Cunha. Descendente de bantos africanos e de índios kiriris, filho de mãe sertaneja de Canudos e de pai descendente de ciganos da Armênia, territorialidades afetivas que estão impressas em sua obra.

1957

Aos 9 anos, J. Cunha observava o trabalho de Júlio Silva, pintor primitivista que se inspirava nas festas de largo e nas imagens votivas. Além de observar o trabalho de Silva, Cunha gostava de passear pelas barracas das festas de largo da Boa Viagem, o que ainda é uma base do que faz atualmente: "a transcendência das pinturas populares".

1966

Aos 18 anos, J. Cunha entra no curso Livre de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, um marco importante que definirá sua produção artística. Recepcionado por uma tríade de artistas e professores formada por Juarez Paraíso, Mario Cravo Jr. e Emídio Magalhães, Cunha dá início a um processo de imersão na arte de forma orgânica e intelectual, na busca de suas raízes profundas: bantos e kiriris. J. Cunha frequenta a Escola de Belas Artes até 1969.

1968

A inquietação artística de J. Cunha o leva para o Viva Bahia, grupo criado pela etnomusicóloga Emilia Biancardi, em 1962. Cunha foi cenógrafo, figurinista e bailarino e participou de apresentações no Brasil e no exterior. Tendo como base a capoeira, o candomblé, o cordel e as manifestações populares rurais e urbanas, o Viva Bahia fazia experimentações estéticas com a cultura afro-baiana, sendo um espaço fundamental para a interseção entre política e religião em seus trabalhos.

1970

Sua entrada oficial no mundo das artes visuais se dá neste ano, quando recebe o Prêmio Artista da Nova Geração – UFBA / Museu de Arte Moderna da Bahia. Como prêmio, ganha uma exposição no MAM com apresentação assinada por Mario Cravo Jr. "A partir desse momento, me considero um artista", declara. Participa da pré-Bienal de São Paulo, com pinturas cuja temática era a questão sociopolítica do Nordeste. Sua curiosidade o leva ao Balé Brasileiro da Bahia, criado pela Ebateca. Passa a assinar vários cenários e figurinos para turnês internacionais do Balé.

1972

Convidado pela comissão da Brasil Plástica 72 - Bienal de São Paulo para representar a Bahia, leva Estandartes, sua primeira instalação, com três metros de altura, pintada em preto e vermelho. O trabalho é uma crítica à cultura do consumo.

1974

Claramente influenciado pelos tropicalistas, dirige o filme Noite Alta Céu Risonho. Feito em Super 8, mas nunca lançado, conta a história de um cangaceiro que sequestra a Miss Bahia, salva por um super-herói nordestino.

1975

Passa a ser representado pela Galeria Cavalete, onde faz diversas exposições.

1976

Primeira exposição individual no MAM-BA, Sertão e Luz, na qual apresenta múltiplas artes: pintura, desenho, dança, poesia, literatura e performance. Transforma o Solar do Unhão em uma festa de largo.

1977

É o primeiro artista a ganhar, na categoria Melhor Figurino, o Prêmio Martins Gonçalves com o espetáculo O Meio do Mundo.

1978

Participa da Bienal Latino-Americana de São Paulo com ambientação plástica para o espetáculo Ao Pé do Caboclo, do grupo experimental de Dança da UFBA, com coreografia de Lia Robatto, com quem fez diversos outros trabalhos.

1979

Cria a identidade visual, como cenógrafo e figurinista, do Bloco Afro Ilê Aiyê, definindo inclusive suas cores — amarelo, branco, vermelho e preto — a partir de seus significados políticos, ideológicos e religiosos, e também participa dos desfiles até o ano de 2005.

1980

Assina o cenário e os figurinos de Maria Quitéria, Sonhos de Castro Alves (1982), Tropicália: Relíquias do Brasil (1983), para o Balé do Teatro Castro Alves. É um colaborador eventual do BTCA.

1984

Elabora o design da capa do primeiro disco do Ilê Aiyê, Canto Negro. Faz parte da equipe de decoração do carnaval de Salvador: Bahia, Cem Anos de Folia.

1988

Participa do Projeto Nordeste de Artes Plásticas, exposição itinerante que percorre todas as capitais nordestinas, ao lado de artistas como Juarez Paraíso, Bel Borba, Murilo, Cesar Romero, Juraci Dórea, Sonia Rangel, entre outros.

1990

Participa do livro A Mão Afro-Brasileira, organizado por Emanoel Araújo, que registra a presença e a produção de negros e mulatos nas nossas artes e letras.

1990

Participa do livro A Mão Afro-Brasileira, organizado por Emanoel Araújo, que registra a presença e a produção de negros e mulatos nas nossas artes e letras.

1991

Ao lado do irmão Babalú, J. Cunha participa da Quinzaine Culturelle Brésilienne – Peintres Brésiliens, em Genebra, na Suíça. Em sua trajetória internacional, também participou de exposições de arte negra em Los Angeles e Oakland, nos Estados Unidos.

1992

Assina a cenografia e os figurinos do show da cantora Daniela Mercury, O Canto da Cidade, com o qual a axé music ganha projeção nacional. J. Cunha colabora com artistas baianos como Márcia Short, Márcia Freire, Netinho, Lazzo Matumbi, entre outros.

1993

Cria os figurinos da peça Canudos: a Guerra do Sem Fim, dirigida por Paulo Dourado e encenada na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.

1997

Assina a capa e as ilustrações para o livro Mãe Hilda – A História da Minha Vida, publicação do Ilê Ayiê sobre a mãe de santo e fundadora do bloco.
Participa do evento The Refugee Project, no The Museum for African Art, em Nova York, organizado pela cantora Lauryn Hill.

1998

Assina os figurinos do carnaval baiano, 30 anos de Tropicalismo. Faz uma releitura dos parangolés de Hélio Oiticica para vestir os homenageados: Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.

2000

É um dos artistas premiados da exposição Art for Expo, em Hannover, na Alemanha.

2001

Ganha o Prêmio Copene de Cultura e Arte e monta a exposição A Vida Popular, As Cores da Terra no Centro de Memória e Cultura dos Correios, Pelourinho, Salvador.

2003

Realiza uma série de exposições em Michigan, nos Estados Unidos.

Criação e supervisão de figurinos e adereços para o show de Gilberto Gil e os Quatro Cantos, no Teatro Castro Alves.
Convidado pela Fundação Casa de Jorge Amado, ilustra o livro de Cinco Histórias, de Jorge Amado, ao lado de Calasans Neto, Bel Borba, Murilo e Sergio Rabinovitch.
Participa da coletiva Colours & Textures of our Legacy: The African Brazilian Connection, no Broward Center for the Performing Arts, em Fort Lauderdale, na Flórida.

2005

Participa da exposição Brasil & Estrelas, na Prefeitura de Paris, integrando a programação do Ano do Brasil na França, e também da coletiva Brésil 5 Etoiles.

2006

Desenha o cartaz e elabora a identidade visual do longa Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro, lançado em 2011. Participa da exposição de Arte Contemporânea: As Portas do Mundo na Europa e na África.

2007

Participa da exposição Às Portas do Mundo - Pluralidade na Lusofonia, que percorre alguns países da Europa e da África.

2008

Como resultado do trabalho gráfico criado para o Ilê Aiyê, J. Cunha é convidado para a Biennale Internationale du Design Saint-Étienne, na França.

2009

É um dos convidados da exposição coletiva Design Brasileiro Hoje: Fronteiras, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, ao lado de Gringo Cardia, Os Gêmeos e Guto Lacaz. de Saint-Étienne, na França, e da exposição Design Brasileiro – Fronteiras 2009 no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Brasil.

2012

Cria a identidade visual e ambientação cenográfica para o projeto Carnaval Ouro Negro.

2014

É um dos convidados da III Bienal Nacional da Bahia, com a apresentação do painel Códice Brasil – África, no Espaço Cultural Hansen Bahia, em Cachoeira.

2014

É um dos convidados da III Bienal Nacional da Bahia, com a apresentação do painel Códice Brasil – África, no Espaço Cultural Hansen Bahia, em Cachoeira.
Cria o gradil Histórias de Ogum para compor o acervo do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB, em Salvador.

2015

Lançamento do documentário A Vida Estampada de J. Cunha, produzido pela TVE-Bahia.

2016

É publicado pela editora Corrupio o livro O Universo de J. Cunha, com Curadoria Editorial e Organização de Danillo Barata.

2018

Participa da exposição Axé Bahia: The Power of Art in an Afro-Brazilian Metropolis, no campus da UCLA (University of California, Los Angeles), explorando as relações entre arte, Bahia e afro-brasilidade.
É um dos 214 artistas da exposição Histórias Afro-Atlânticas, com uma seleção de 450 trabalhos do século XVI ao XXI, abordando os “fluxos e refluxos” entre a África, as Américas, o Caribe e a Europa, apresentada pelo Museu de Arte de São Paulo e pelo Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

2019

Ocupação J. Cunha no Pátio Corrupio, em comemoração aos 40 anos da Editora Corrupio. A exposição trouxe fragmentos do trabalho do artista ao longo de quase seis décadas de criação.
Participa da coletiva Ounjé - Alimento dos Orixás, no Sesc Pinheiro, em São Paulo, uma imersão artística na cultura africana a partir da culinária dos terreiros das religiões afro-brasileiras, especialmente do candomblé. J. Cunha apresenta lambe-lambe no muro do deck da piscina, trabalho caracterizado pelo mergulho no imaginário da cultura afro-indígena e da cultura popular nordestina brasileira.
É um dos 19 artistas da coletiva Vértice. Realiza a individual Caminhos por Onde Andei, na Casa Brasileira, na cidade de São Sebastião, SP. A exposição percorre diferentes momentos e linguagens da obra do artista, no Museu de Arte Moderna da Bahia.

2020

No primeiro ano da pandemia de COVID-19, J. Cunha passa o tempo criando em seu ateliê, na Boca do Rio, dando andamento a sua obra.

2021

É um dos artistas convidados da coletiva Electric Dreams, na Galeria Nara Roesler, no Rio de Janeiro, com curadoria de Raphael Fonseca.

2022

Participa da coletiva O Museu de Dona Lina, no MAM da Bahia, reunindo 300 obras do acervo fixo do MAM. É um dos artistas da exposição Afro-Atlantic Histories: Contemporary Viewpoints, na National Gallery of Art, em Washington DC, Estados Unidos, considerada pelo New York Times a melhor exposição do ano.
É um dos 100 artistas da exposição Um Defeito de Cor, que passou pelo MAR, no Rio de Janeiro. Foi para o MUCAB, em 2023, em Salvador, e em 2024 no SESC São Paulo. Os curadores são Amanda Bonan e Marcelo Campos.

2023

Faz parte da exposição Brasil Futuro: As Formas da Democracia, com curadoria da historiadora, antropóloga e escritora Lilia Schwarcz, no Centro Cultural Solar Ferrão.
Protagoniza o documentário J. Cunha, dirigido por Helder Aragão, o DJ Dolores, tendo destaque como um dos principais nomes do design da diáspora negra no sul global. Com depoimentos de 26 minutos, é parte da série Designers do Brasil.
Participa da exposição do 2 de julho, um momento histórico que reuniu 54 dos artistas mais expressivos do cenário das artes na Bahia, na Galeria Canizares, na EBA, em Salvador, Bahia.

2024

A Pinacoteca apresenta uma retrospectiva do artista intitulada J. Cunha: Corpo Tropical, a maior mostra individual já realizada em sua carreira, com Curadoria de Renato Menezes. Com cerca de 300 itens, entre pinturas, desenhos, cartazes, estampas, objetos e documentos, apresenta a trajetória do artista, acompanhando seus percursos pela Bahia e sua projeção nacional e internacional.
Representado pela Galeria Paulo Darzé apresenta na SP-Arte 2024, no Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, uma mostra reunindo pinturas e objetos.

Nadja Vladi é professora adjunta do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT) da Universidade Federal da Recôncavo da Bahia (UFRB). Graduada em Comunicação com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahiae doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas na mesma instituição.

Mãe Hilda Jitolu: Guardiã da fé e da tradição africana

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por Maria de Lourdes Siqueira

Introdução

Mãe Hilda Jitolu, nascida Hilda Dias dos Santos Jitolu, foi uma figura central na preservação e disseminação da fé e da tradição africana no Brasil. Como iyalorixá, sua liderança e sabedoria transcenderam gerações, influenciando não apenas sua família, mas também comunidades inteiras através de sua dedicação ao candomblé. Sua vida e obra refletem a resistência e a riqueza cultural da diáspora africana, consolidando-se como um pilar fundamental para a manutenção das tradições afro-brasileiras.

Primeiros Anos e Formação Espiritual

Mãe Hilda cresceu em um ambiente profundamente enraizado nas tradições africanas. Desde cedo, ela testemunhou a fé e a generosidade de sua mãe, que sempre abriu as portas de sua casa para ajudar os necessitados. Essas experiências formaram a base do que seria sua vida dedicada ao serviço comunitário e à preservação das tradições religiosas africanas. Em suas palavras: “Meus filhos cresceram vendo que eu tenho fé. Minha casa sempre foi frequentada pelo que considero herança de minha mãe” (Siqueira, 1996, p. 3).

Ela foi iniciada no candomblé pelo Babalorixá Cassiano Manoel de Lima e continuou suas obrigações sob a orientação de Iyalorixá Constância da Rocha Pires, conhecida como Mãe Tança, no Terreiro Cacunda de Iaiá. Mãe Tança, descrita como uma mulher bondosa e generosa, passou seus conhecimentos e direitos religiosos para Mãe Hilda, permitindo que ela continuasse a tradição. Nas palavras de Mãe Hilda, “Mãe Tança era uma pessoa muito bondosa. Gostava de passar ‘as coisas’ para as pessoas, ela não era dessas que segurava, ela passava se a pessoa tinha direito. Mãe Tança tinha esse direito” (Siqueira, 1996, p. 5).

Criação do Ilê Axé Jitolu

Em 1952, Mãe Hilda fundou o Terreiro Ilê Axé Jitolu, um marco na história do candomblé e da comunidade afro-brasileira. O terreiro, nascido de sua fé em Obaluayê, tornou-se um centro de resistência cultural e espiritual, celebrando festivais e rituais que atraíam pessoas de diversas origens e reforçavam a identidade ­afro-brasileira. “Eu tive de lutar para juntar dinheiro para fazer o Terreiro, ­fazer a casa. Assim nasceu o Ilê Axé Jitolu. Aí se considera nascimento. Nasceu um terreiro dia seis de agosto de 1952” (Siqueira, 1996, p. 7).

O Terreiro Ilê Axé Jitolu rapidamente se tornou um espaço de referência, não apenas para a prática religiosa, mas também para a promoção de atividades culturais e sociais. As festas e cerimônias organizadas no terreiro atraíam centenas de pessoas, contribuindo para a manutenção e fortalecimento da identidade cultural afro-brasileira. “Começamos com a festa de Obaluayê no dia 16 de agosto. No mês de setembro, prosseguimos com a festa do Caboclo Tupiassu. A gente celebra com muita garra, com muita animação, tudo a que ele tem direito” (Siqueira, 1996, p. 9).

Família e Compromisso Comunitário

Casada com Waldemar Benvindo dos Santos, Mãe Hilda criou cinco filhos que se tornaram figuras proeminentes no cenário cultural e religioso brasileiro. Antônio Carlos dos Santos, conhecido como Vovô, fundou o bloco afro Ilê Aiyê, enquanto Hildete Valdevina dos Santos Lima, ou Dete Lima, tornou-se diretora artística do Ilê Aiyê e vice-presidente do Instituto Mãe Hilda Jitolu. Outros filhos, como Vivaldo Benvindo dos Santos e Hildelice Benta dos Santos, também assumiram papéis importantes no Ilê Axé Jitolu e em iniciativas culturais e educacionais. “O Ilê Aiyê tem uma força e eu creio que essa força foi trazida pelo Axé do Orixá porque quando eu comecei a ter filhos, já tinha as minhas obrigações na minha cabeça, no meu corpo, então o meu primeiro filho já nasceu dentro do Axé” (Siqueira, 1996, p. 11).

O compromisso de Mãe Hilda com a comunidade ia além da família. Ela sempre acreditou na importância da educação e do desenvolvimento cultural para a emancipação do povo negro. Com esse objetivo, fundou uma escola de 1º grau que se tornou um modelo pedagógico para outras instituições da comunidade, oferecendo aulas de religião e teatro, além de promover o conhecimento sobre as tradições africanas. “O terreiro é pequeno, mas já tem disciplina que é uma escola de minhas filhas de santo e para as crianças daqui. Carentes da nossa comunidade, acho que Deus me ajudou que o meu sonho foi realizado, eu fundei essa escola” (Siqueira, 1996, p. 13).

Impacto Cultural e Social

Mãe Hilda foi uma pioneira na articulação de tradições afro-brasileiras com a educação e a cultura popular. Ela fundou uma escola que virou uma referência educacional para os estudantes e toda a comunidade do bairro do Curuzu, onde está a sede da instituição, além de promover o conhecimento sobre as tradições africanas. “O candomblé sempre foi casa de ensinamentos e esta função agora prossegue com as nossas diversas escolas” (Siqueira, 1996, p. 15).

Além de seu trabalho na educação, Mãe Hilda teve um papel fundamental na criação do bloco afro Ilê Aiyê. Fundado em 1974, o Ilê Aiyê tornou-se um símbolo de resistência e valorização da cultura negra. “O Ilê surgiu em 1974. 1975 foi o primeiro ano que ele foi para a rua, mas antes dele sair, porque ele surgiu numa Casa de Candomblé consultando os orixás, achei que era muitos negros juntos [...] Achei que era necessário que se fizesse alguma coisa por parte do Axé para pedir proteção para esse povo” (Siqueira, 1996, p. 17).

Mãe Hilda também foi uma das responsáveis pela criação do Grupo de Mulheres de Axé Dandarerê, que abre alas nos desfiles do Ilê Aiyê representando ancestralidade, tradições culturais, religiosas e étnicas. Essas mulheres, guiadas pela força e proteção dos orixás, são um exemplo vivo do legado de Mãe Hilda.

Legado e Reconhecimento

A fé inabalável de Mãe Hilda e sua dedicação à preservação das tradições africanas lhe renderam várias homenagens, que fizeram jus à sua importância cultural e imaterial. Ela também foi imortalizada em músicas e recebeu tributos durante festivais e eventos culturais. A cidade de Salvador reconheceu seu trabalho, conferindo-lhe honrarias como a Chave da Cidade e a Medalha 2 de Julho, entre outros. “Mãe Hilda recebeu homenagens da 2ª série da Escola Mãe Hilda e de compositores do Ilê Aiyê. Que as Mães Pretas do Brasil sejam parecidas com Mãe Hilda. Nos acalentem, nos acolham, nos aconselhem para sermos negros felizes” (Siqueira, 1996, p. 19).

Seu trabalho e legado transcenderam as fronteiras do terreiro, impactando a sociedade em geral. Ela participou de eventos importantes como o II Congresso Internacional dos Orixás, onde contribuiu para o diálogo entre a Igreja Católica e as religiões afro-brasileiras. Além disso, Mãe Hilda sempre esteve presente em celebrações religiosas de outras denominações, demonstrando seu respeito e abertura para a diversidade religiosa.

Conclusão

O legado de Mãe Hilda Jitolu é uma herança viva que continua a inspirar e fortalecer a identidade ­afro-brasileira. Seu trabalho como guardiã da fé e da tradição africana é um testemunho de sua visão e dedicação, assegurando que as futuras gerações mantenham viva a chama da cultura e espiritualidade africanas no Brasil. Sua vida e obra são um exemplo de resistência e resiliência, refletindo a profundidade e a riqueza das tradições africanas que ela tanto prezou e preservou. Mãe Hilda continuará a ser lembrada e honrada por sua contribuição inestimável à cultura afro-brasileira.

Maria de Lourdes Siqueira Graduada em Licenciatura em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão (1964), com especialização em Comunidades Latino-Americanas pelas Nações Unidas e Centro Regional de Educação (1967), tem mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986), doutorado em Antropologia Social e Etnologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (1992), pós-doutorado pela University Of London School Of Orient And African Studies (1998) e pós-doutorado pela University of South Africa (2000). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Antropologia das Populações Afro-Brasileiras.

Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê

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por Arany Santana

1.Termo regional, que significa reforço escolar.

2.O deburù, também conhecido como flor do velho ou pipoca do velho, é uma expressão utilizada pelos Povos de Terreiro.

A década de 1980 foi crucial para a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação ao incluir oficialmente a obrigatoriedade do ensino de história da cultura africana e ­afro-brasileira no currículo escolar, mas pouca gente sabe que a implementação dessa política pública nacional, que só se deu em 2003, teve a Bahia como pioneira.

Impulsionada pela pressão dos movimentos populares, fruto de incansável exigência do Movimento Negro Unificado, criado em 1978, somado aos terreiros de candomblé e ao primeiro bloco afro do Brasil, Ilê Aiyê, as Universidades Federal e Estadual da Bahia, mas, sobretudo, o Estado se viu tensionado, desde 1985, a inserir a temática na pauta das políticas públicas educacionais.

A audácia do Ilê Aiyê, que já em seu primeiro desfile, em 1975, em plena ditadura militar, desvelou o racismo no Brasil, exaltou a beleza e a força de heróis e heroínas da resistência negra — bem como a magnitude de reinos africanos, conteúdo esse nunca apresentado em sala de aula, traduzido sob o prisma de canções de forte impacto — gerou um movimento inédito de busca por parte de estudantes e professores das escolas do bairro da Liberdade por informações sobre as temáticas abordadas pelo bloco. Diante desse fato inesperado, a diretoria do Ilê se viu compelida a pensar ações que sistematizassem esse conhecimento. Era uma resposta à visão estereotipada dos livros didáticos e da abordagem eurocentrada da história. Que história é essa que ecoava das canções do Ilê e firmava desde um novo padrão de beleza à valorização e salvaguarda das religiões de matriz africana?

A mentalidade visionária de Mãe Hilda Jitolu foi a mola propulsora do projeto educacional do bloco. A princípio, o pedido da matriarca era acolher crianças que passavam grande parte do tempo na rua, oferecendo-lhes banca1 , já que sua filha Hildelice tinha formação em Magistério. A partir de então, constatou-se que esses alunos, para além do déficit em leitura e escrita, eram, em sua grande maioria, expulsos da rede escolar por sua multirrepetência, sendo, portanto, inquietos, indisciplinados, ou seja, fora do padrão esperado pelo sistema educacional. Por outro lado, o encantamento dessas crianças pelas músicas entoadas pelo Ilê Aiyê facilitava o processo de alfabetização.

Em 1985, diante da crescente pressão, o Conselho Estadual de Educação do Estado da Bahia aprovou a lei, logo sancionada, que inseria a “Introdução ao Estudo da História e das Culturas africanas” nos currículos das escolas públicas e privadas.

No ano seguinte, 1986, uma comissão coordenada pela professora da UFBA, Eugênia Lúcia Viana Neri, composta por técnicos e professores dessa mesma universidade, além da Uneb e da Secretaria de Educação, implementou o primeiro curso de especialização em História da África, voltado para 30 professores de História da rede pública e dez membros de organizações negras de Salvador, desde que portadores de diploma de nível superior.

Pouco tempo depois, o barracão do Ilê Axé Jitolu já estava repleto de crianças sentadas em carteiras doadas pelo então Secretário de Educação do Estado, Professor Dr. Edivaldo Machado Boaventura, que tornou realidade o sonho de Mãe Hilda em ver seu espaço sagrado transformado em escola, fato concretizado em 1988, quando nasce a Escola Mãe Hilda. Foi pelas mãos desse mesmo gestor que, em 1987, a disciplina de História da África foi implementada em dez escolas públicas de Salvador, mais precisamente em bairros periféricos de concentração da população negra. Tal política, infelizmente, durou apenas um ano. Com a mudança do governo e de todo o secretariado, a disciplina foi banida dos currículos, dependendo tão somente da boa vontade de alguns professores, que, sem nenhum apoio, sustentaram a temática por mais dois anos.

Na contramão do movimento governamental, o barracão do Ilê Axé Jitolu se tornou pequeno para o número de estudantes que crescia a cada ano, obrigando a escola ocupar outros espaços do terreiro. As músicas eram o instrumento pedagógico que transformou a escola num espaço de alegria, ludicidade e identidade.

Assim como manda a tradição do candomblé, Mãe Hilda fazia questão de usar recursos próprios para preparar uma farta mesa com a merenda das crianças, sendo essa geralmente vinculada aos orixás. Dessa forma, por exemplo, às segundas-feiras, oferecia-se pipoca, fazendo a alegria geral da criançada. Mãe Hilda aproveitava esses momentos para mostrar, com orgulho, que a “flor”2 do velho Obaluayê era a comida do dono de sua cabeça e patrono do Terreiro. Importante reforçar que foram incontáveis os momentos em que que flagrávamos Mãe Jitolu observando e admirando as aulas pelas frestas da porta entreaberta, sem que na maioria das vezes fosse notada pelos alunos.

A grande revolução da Escola Mãe Hilda se deu pela transformação de um espaço votivo em escola, oferecendo acolhimento a estudantes renegados pelo sistema escolar, agora felizes e aprendendo, para além do currículo formal, o respeito por uma religião secularmente discriminada e, sobretudo, a valorização da história de sua ancestralidade negra, desprezada até hoje por grande parte das escolas do país.

O sucesso metodológico da escola resultou na mudança comportamental dos alunos, que, devido ao espaço sagrado que frequentavam, aprendiam sobre o respeito mútuo, o respeito às diferenças, mas, sobretudo, o respeito aos mais velhos. Se tornou rotina os alunos pedirem a benção ao adentrar o ambiente escolar, fundamento vital das religiões de matriz africana, de modo que não tardou que essas crianças, então alfabetizadas, passassem a ser disputadas por escolas da região.

Foi a partir dessa exitosa experiência que, mais uma vez, a professora Eugênia Lúcia, em 1995, na maioridade do bloco, chamou o presidente Vovô à responsabilidade de produzir material didático a partir da ótica dos carnavais do Ilê, assegurando a permanência da temática africana e afro-brasileira nos currículos das escolas da Liberdade e adjacências, promovendo conhecimento para os alunos e a capacitação de professores das redes municipal e estadual daquela região.

Nascia assim o Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê, materializado em seus Cadernos de Educação, contando com um time de peso de professores, dentre eles, Jaime Sodré, Makota Valdina Pinto, Jorge Conceição, Ana Célia da Silva, Maria de Lourdes Siqueira, Lindinalva Barbosa, sob a coordenação de Arany Santana e Jônatas Conceição. A qualidade do projeto atraiu importantes parceiros como a Fundação Odebrecht e as Secretarias Municipal e Estadual de Educação da Bahia, além de render o prêmio de terceiro melhor projeto pedagógico do Brasil pelo Itaú – UNICEF.

Somado à escola Mãe Hilda, o Projeto envolveu professores, dirigentes, coordenadores e supervisores das seis maiores escolas da Liberdade e entorno. Contemplou mais de três mil alunos, capacitou sessenta professores, que, por meio do conhecimento, puderam rever seus conceitos, suas convicções e crescer enquanto seres humanos.

Diante do sucesso, o curso foi estendido para dirigentes e assessores de blocos afros e afoxés, povo de santo, membros de associações culturais, grupos de capoeira que agora adentravam o espaço do Centro de Estudos Afro-Orientais, o CEAO, da Universidade Federal da Bahia, para receber essa capacitação.

O icônico tema do primeiro Caderno de Educação, fruto do Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê, não poderia ser outro senão “Organizações de Resistência Negra”. O material apresentava as mais importantes organizações negras brasileiras, desde o século XVI até a fundação do Ilê Aiyê, e já contava com o design gráfico do magistral artista plástico J. Cunha, que chegara no bloco muito antes, criando em 1978 sua identidade visual, o emblemático Perfil Azeviche. A partir de 1980, Cunha passou a desenvolver o design dos tecidos do bloco, finalizando a conjunção perfeita entre a transformação política, estética e, mais tarde, educacional do Ilê Aiyê, indo muito além do âmbito local de Salvador, tornando-se um marco nacional, quiçá internacional.

Era, enfim, o grito da raça ecoando, reescrevendo a história de nossos antepassados, elevando a autoestima de nossas crianças, num movimento revolucionário que mudou a mentalidade e a paisagem urbana de Salvador.

Arany santana é ouvidora geral do Estado da Bahia. Natural de Amargosa, no interior baiano, ela é formada em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em História da África e possui um histórico atrelado à cultura e à militância étnica com uma longa trajetória de resistência. Arany participou da história da fundação do Ilê Aiyê, o movimento negro mais antigo do Brasil, onde permaneceu diretora durante muitos anos. Em 1978, fundou o Movimento Negro Contra a Discriminação Racial, hoje Movimento Negro Unificado (MNU), e teve o prazer de lavrar sua ata de fundação junto a nomes proeminentes como Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez.

Que beleza é essa?

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por Rita Maria

A arte transforma realidades

Na década de 70, os artistas que se reuniram em torno do bloco afro Ilê Aiyê deram forma a um ideal estético que abriu possibilidades para a redefinição da imagem dos corpos, dos papéis sociais e da conduta da população negra na cidade de Salvador.

Sabemos que civilizações são erigidas em torno de estilos artísticos. Elas refletem a sensibilidade, o nosso ­estar-no-mundo, direciona nossas escolhas e categoriza as coisas do nosso dia a dia. Cosmovisões que fundam mundos e sociedades são erigidas sobre ideais estéticos. Em consonância, podemos afirmar que a Beleza Negra, criada e difundida no Ilê Aiyê, é a manifestação de um projeto civilizatório igualitário e antirracista bem-sucedido.

O Fundamento

O fator preponderante para a compreensão desse estilo é a consideração de que sua origem está no Ilê Axé Jitolu, um terreiro de candomblé, uma comunidade que encarna a resistência dos valores da herança africana. Esse espaço sagrado estava sob o “comando doce” da Iyalorixá Hilda Dias dos Santos, Mãe Hilda Jitolu, a responsável pela liderança da casa. Enquanto matriarca, ela atuava como mãe e educadora, mas, acima de tudo, como zeladora da ancestralidade. Foi ela quem estabeleceu os parâmetros éticos e estéticos dessa arte nascente. Em seus ensinamentos, o respeito às tradições se concretizava na conduta deferente e elegante em relação aos mais velhos e à sacralidade sempre presente na lida com o corpo negro e em todos os momentos da vida.

Por outro lado, os jovens fundadores do bloco também foram inspirados pelos movimentos Black Power nos EUA, black soul no Rio de Janeiro, pelas lutas de libertação dos países africanos e pelos valores do movimento da negritude. Eram artistas e personalidades negras que ofereceriam novos modelos de conduta e de vida para além das expectativas previstas nas hierarquias sociais e raciais vigentes à época.

É da confluência entre a novidade e a tradição que se estabelece o princípio mais profundo para a criação artística da Beleza Negra e da arte do Ilê Aiyê: a busca constante pela visibilização, atualização e estetização de todas as formas e práticas associadas à ascendência africana. O segredo trazido nessa arte está no reconhecimento de que, na Bahia (e em todas as comunidades diaspóricas), a ancestralidade está presente e segue mantida, reelaborada e amadurecida no berço amoroso e acolhedor das famílias, na solidariedade da vizinhança dos bairros negros, nas rodas de samba e capoeira e, principalmente, nos terreiros de candomblé e em outros espaços e em manifestações de acolhimento e socialização em que predominava uma sensibilidade de matriz africana.

Foi nesse espaço-tempo que os múltiplos talentos de jovens artistas, cenógrafos, dançarinos e músicos tiveram o desafio de expressar e dar forma a uma beleza diluída nas experiências e no imaginário mais onírico da vida e do ser negro em Salvador. É disso que se estabeleceu e se erigiu uma linguagem artística que é fiel à origem, à transcendência e ao sentido das coisas, insubmissa às preocupações e regras da materialidade ordinária do entendimento fácil, do consumo descartável, do prazer superficial ou da lógica comercial.

Os criadores da forma

Desde 1975, a estilista e coreógrafa Dete Lima atua como diretora artística e designer na criação de figurino e fantasias do bloco. Em destaque, está o seu estilo escultórico original de dobraduras e amarrações dos tecidos na roupa da Deusas do Ébano. Seu trabalho de modelagem encontrou fundamento na sua experiência como Ekedi no Ilê Axé Jitolu. Foi a partir do cuidado e da criação das roupas para os Voduns, dos adornos ricamente elaborados com palha, búzios, fitas e contas colocados sobre estas roupas, que seu processo criativo pôde se manifestar e aprimorar.

Em 1978, o artista visual J. Cunha (José Antônio Cunha) chega ao Ilê Aiyê convidado pelo diretor Carlos Bamba para trabalhar como cenógrafo. Depois disso, ele assumiu a criação da identidade visual do bloco, sendo sua contribuição mais marcante a criação do Perfil Azeviche, a marca do Ilê Aiyê. Trata-se de um rosto composto predominantemente por formas angulosas e negras com linhas fortes. Em depoimento à repórter Larissa Almeida, no Jornal CORREIO, publicado em 31 de janeiro de 2024, J. Cunha conta: “Eu fiz aquela marca não inspirada, mas iluminada pela mãe de Vovô, Mãe Hilda Jitolu, com quem eu tinha muitas conversas. Ela era uma pessoa radiante e, quando viu meu trabalho, ficou muito respeitosa com a extensão dele. Baseado no Orixá dela, Omolu, eu fiz aquela cabeça”. As cores utilizadas foram as definidas pelos diretores do bloco com a atribuição de significados simbólicos: o branco é a paz; o vermelho, o sangue derramado – uma homenagem à memória dos que lutaram pela libertação do povo negro e contra o racismo; o preto foi traduzido como a cor da pele; e o amarelo-ouro representa a riqueza cultural e a beleza dos povos negros.

De 1980 a 2005, J. Cunha foi o responsável pela criação das estampas dos tecidos do Ilê Aiyê; que passaram a ser objeto de desejo por todos os admiradores do bloco. Seus tecidos são marcados pela clareza e boa distribuição das formas, com referências reconhecíveis advindas dos bordados e estamparias rituais, da arquitetura, arte escultórica e pictórica de vários povos africanos, criando um vocabulário visual próprio enriquecido por pesquisas desenvolvidas desde a década de sessenta, quando iniciou seu trabalho como artista plástico. Uma das suas marcas distintivas são as cordas de búzios abertos, um motivo que foi copiado por outros artistas e designers na Bahia.

É necessário frisar a dificuldade imposta por uma constante busca por fontes sobre o continente africano e sua diversidade cultural, em uma época em que não havia referências para a criação um vocabulário imagético original disponível nas bibliotecas. Foi dessa ausência que surgiu uma arte como desejo por uma África onírica e ao mesmo tempo tão presente, reconhecível e viva nas sensibilidades, na cultura e no imaginário locais.

Em sequência, o artista Mundão (Raimundo Sousa dos Santos) chega ao Ilê Aiyê e dá continuidade a esse trabalho. Seu estilo próprio é caracterizado pela abundância de padrões e elementos gráficos que emolduram personalidades e signos relativos aos temas do carnaval. Sua expertise está em harmonizar diversas formas para produzir uma releitura da arte e dos símbolos tradicionais africanos e afro-brasileiros, criando uma arte autoral e original através de uma técnica desenvolvida com recursos digitais.

No Ilê Aiyê, a importância e a valorização desses tecidos alcançaram um patamar distintivo e uma identidade que pode ser analisada sob diversos aspectos. Para tanto, é preciso fazer um paralelo entre esse trabalho de estamparia e os diversos e profundos significados que os tecidos e as indumentárias assumem em variadas culturas africanas, indo muito além das ditas “artes decorativas”. Em alguns casos, os tecidos são o elemento principal da indumentária ritual, que é necessária para conectar ou separar os mundos físico e espiritual. Em outros casos, eles são insígnias de poder e status familiar ou social, agregando significados de riqueza, identidade de grupo, status social e autoridade. Além de trazer memórias e contar histórias tanto para a Diretoria quanto para seus associados e fãs, os tecidos do Ilê Aiyê expressam o vínculo individual e social com o bloco e seus valores. Eles adornam os espaços e corpos sinalizando territórios e identidades em ocasiões festivas e ritualísticas e assumem um significado especial ao sinalizar adesão a uma comunidade e aos seus valores.

Para alguns foliões, artistas e, de uma forma especial, para candidatas a Deusa do Ébano, colocar esses tecidos sobre o corpo, trabalhados com as amarrações de Dete Lima, faz emergir uma forte emoção, expressa, frequentemente, na forma de lágrimas que, supostamente, são provocadas por uma espécie de alinhamento positivo entre a identidade pessoal e a identidade racial negra que, contemporaneamente, ainda é objeto de discriminação e alvo de exclusão social.

Do Sentido ao Significado

Da eficiência plástica à eficácia simbólica, o trabalho desses artistas do Ilê Aiyê alcançou potência para ressoar e se replicar em múltiplas manifestações nas capilaridades do cotidiano baiano. Suas criações aparecem como referências em vários estilos musicais, nas artes plásticas, na moda, assimiladas e difundidas por outros artistas dos cenários nacional e internacional.

Eles foram os primeiros a apresentar soluções originais e mais contemporâneas para dar visibilidade aos ideais vigentes nas culturas e tradições artísticas negras da Bahia. Criaram uma forma de beleza reconhecível e sedutora que é a expressão de um projeto civilizatório inclusivo, antirracista e igualitário. A partir dessa produção artística, a Beleza Negra do Ilê Aiyê resulta em uma profusão de signos de adesão a essa forma de ser, de se portar e de viver a negritude com orgulho; gerando solidariedades, incutindo respeito e autorrespeito, reconhecimento e autorreconhecimento para uma identidade negra valorosa.

É por isso que afirmamos que a Beleza Negra do Ilê Aiyê e o trabalho dos seus artistas atuam de modo eficaz como uma forma de contra-hegemonia. Seu caráter é pop e popular. Seu estilo é agregador e atrai olhares e adesões para todas as manifestações culturais e identitárias negras. De tradicional a irreverente, a estética do Ilê Aiyê é essencialmente contemporânea e é sempre renovada.

Não há como negar que a Beleza Negra do Ilê Aiyê se tornou um instrumento reconhecido de engajamento político e social antirracista. O uso de seus atributos fortalece e engaja as subjetividades e os corpos negros para a conquista de poder e penetração em vários espaços sociais, ultrapassando fronteiras, rompendo barreiras mentais e objetivas para a inclusão e ascensão social.

Ao proporcionar visibilidade e preencher a mídia e as ruas com rostos e corpos negros felizes, autônomos, confiantes e capazes para construir e transformar seus próprios destinos, a valorização individual do corpo negro se expande e se transforma em valorização do corpo social negro. E é assim que advogamos que a arte e a Beleza Negra criadas pelos artistas do Ilê Aiyê são um patrimônio vivo e vêm contribuindo, significativamente, cada vez mais, para as mudanças positivas na realidade racial no país.

Rita Maria é museóloga, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Ph.D. pela Universidade de Aveiro, em Portugal, onde desenvolveu o protótipo do Museu Digital para o bloco afro Ilê Aiyê. Atua como coordenadora do Programa de Pós-Graduação e como professora na graduação de Museologia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH-UFBA). Trabalha com o tema da Beleza Negra, desenvolveu pesquisas de mestrado e doutorado sobre o Ilê Aiyê, é uma das coordenadoras do Fórum de Museologia e Cultura Digital e membro do corpo editorial das revistas Ciência da Informação e Inclusão Social, produzidas pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).

Organizações de resistência negra

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por Valéria Lima

1.Ilê Aiyê. Organizações de Resistência Negra, Caderno de Educação. Projeto de Extensão Pedagógica. Volume I. Salvador, 1995.

Resistir é um verbo constante na vida de qualquer pessoa negra. Resistimos desde os navios negreiros, que arrancaram nossos ancestrais de Mãe África e os espalharam pelas Américas, principalmente pelo Brasil. As mãos negras construíram este país, a terra que “em se plantando tudo dá”, e que deu para os nossos apenas dor e trabalho. No entanto, resistimos.

Apesar de as escolas ensinarem por séculos que não houve resistência à escravidão por parte dos africanos usurpados de seu continente, aos poucos estamos resgatando tantas histórias contrárias que foram ocultadas dos livros. Hoje sabemos dos muitos levantes que ocorreram para acabar com a escravidão neste país. Conhecemos as histórias das irmandades, dos quilombos, das negras de ganho, que se organizaram para garantir não só a sua liberdade, mas também a de tantos outros irmãos e irmãs. A liberdade das mulheres que lutaram para manter vivas as tradições, os costumes e a religiosidade de matriz africana.

As organizações de resistência negra no Brasil desempenharam um papel crucial na luta contra o racismo, a discriminação e a desigualdade social. Desde a chegada dos africanos escravizados no país até os dias atuais, essas entidades têm sido fundamentais na promoção dos direitos civis, culturais e políticos da população negra brasileira...

Os quilombos são importante símbolo de resistência e organização. Os escravizados que fugiram das plantações e engenhos tornaram-se referências de liberdade e luta contra a opressão. Em um ambiente de brutalidade e exploração, os quilombos ofereceram refúgio e autonomia, com os negros podendo viver de ­forma livre, em comunidade, preservando suas tradições culturais, e praticando sua religião. O mais famoso deles, Palmares, liderado por Zumbi, resistiu por quase um século, exemplificando a resiliência e a força coletiva dos afro-brasileiros na luta pela liberdade e justiça.

Abrangência

As irmandades religiosas foram determinantes para a sobrevivência dos negros e negras escravizados. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, fundada na Igreja da Sé, no centro de Salvador, é datada de 1685.

Posteriormente foi transferida para uma igreja construída com recursos próprios e com o trabalho dos membros da Irmandade. Os terreiros de candomblé, assim como as irmandades, nasceram em meio à escravidão. Os Orixás, Inquices e Voduns, que aqui desembarcam com os africanos, fizeram morada em todas as regiões do Brasil, de norte a sul. As religiões de matriz africana se mantêm vivas, apesar do racismo e das perseguições. Os registros informam que os primeiros terreiros surgiram por volta de 1830 (p. 8,1995)1 . E nesses espaços sagrados, mães e pais de santo garantiram a manutenção dos cultos originários de África, com uma identidade brasileira.

A mais antiga associação civil negra do Brasil nasceu na capital baiana e há quase 200 anos transforma a vida de negros e negras. A Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada em 16 de Setembro de 1832, inaugurou novas possibilidades na vida de inúmeros escravizados. Liderado por Manoel Vitor Serra, africano livre, um grupo de homens da capital baiana se reuniu para garantir a liberdade de outros, comprando cartas de alforria. Entretanto, ao longo de todos esses anos, a organização atuou de diversas formas, como caixa e empréstimos e penhores, apoiando no tratamento de doenças, na invalidez, na velhice e na garantia de um funeral para aqueles que não podiam pagar. E foi se reinventando de acordo às necessidades que foram surgindo no pós-abolição. E segue, ainda hoje, lutando contra o racismo e as desigualdades por ele ocasionadas.

Com a abolição da escravidão em 1888, a luta pela igualdade continuou, uma vez que a população negra permaneceu marginalizada. A Frente Negra Brasileira (FNB), fundada em 16 de setembro de 1931 por Abdias do Nascimento, desempenhou um papel crucial na luta pelos direitos civis e sociais da população negra no Brasil. Como uma das primeiras organizações de massa lideradas por negros, a FNB buscou combater o racismo e promover a integração social, política e econômica dos afro-brasileiros. Através de campanhas de educação, assistência jurídica e atividades culturais, a FNB trabalhou para elevar a autoestima da comunidade negra e exigir igualdade de oportunidades. Sua atuação pioneira pavimentou o caminho para os futuros movimentos negros do país, deixando um legado duradouro na luta contra a discriminação racial. Embora tenha sido fechada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas em 1937, seu legado influenciou grandes movimentos subsequentes.

A partir da década de 1970, com o fortalecimento dos movimentos sociais no Brasil, houve um ressurgimento significativo de organizações negras. O Ilê Aiyê e o Movimento Negro Unificado, nascidos nesse período, são os responsáveis pelas configurações de movimentos que conhecemos na atualidade. Influenciados pelos Panteras Negras, que lutavam pelos direitos civis nos Estado Unidos da América, surge o primeiro bloco afro do Brasil. O Ilê Aiyê, idealizado por Antonio Carlos Vovô e Apolônio Souza de Jesus Filho, fundado em 1º de Novembro de 1974, ganhou as ruas do carnaval de Salvador a partir de 1975, e, com as bênçãos de Mãe Hilda Jitolu, cantou a beleza e a história do povo negro no Brasil e em África.

O Ilê realizou uma verdadeira revolução estética no Brasil, através do trabalho inovador de Dete Lima. Os turbantes e as amarrações inspiradas nas vestimentas dos Voduns do Axé Jitolu, em conjunto com as estampas desenvolvidas por J. Cunha, deram vida às cores da entidade. Suas ricas vestimentas, seus adereços vibrantes e suas expressões culturais autênticas exaltaram a beleza e a identidade afro-brasileira. A estética desenvolvida pelo bloco não apenas resgatou tradições africanas, mas também desafiou os padrões eurocêntricos de beleza, promovendo o orgulho racial e a autoestima entre os negros. Essa revolução visual e cultural do Ilê Aiyê teve um impacto profundo, influenciando a moda, a arte e a identidade afro-brasileira por gerações.

O Movimento Negro Unificado (MNU), criado em 1978, destacou-se como uma das principais entidades na luta contra o racismo estrutural e na promoção da consciência negra. O MNU tem se empenhado em diversas frentes, incluindo a denúncia da violência policial, a luta por cotas raciais e a valorização da cultura afro-brasileira. Cultura e política se encontram e se reinventam por igualdade e justiça. Para que possamos ser quem somos, assumindo nossa identidade no jeito de ser e de se vestir do povo negro deste país.

Abrangência

A partir dos anos 2000, a resistência negra no Brasil vem ganhando novas configurações e formas de atuação. Enquanto, na década de 1970, elas se dividiram entre culturais e políticas, na atualidade é difícil listar todas. Seja através das artes, da música, com o uso de novas tecnologias, através do afrofuturismo, pelas redes sociais; seja qual for o caminho, o objetivo é sempre ampliar a representatividade e combater o racismo em todas as esferas da sociedade brasileira. Nos últimos anos, diversas organizações foram criadas, destacando-se a Coalizão Negra por Direitos, de abrangência nacional. A Coalizão reúne várias entidades que, embora atuem individualmente em seus respectivos territórios, mantêm-se unidas e vigilantes pelo bem comum. A união dessas forças exemplifica a crença de que juntos somos mais fortes e capazes de alcançar objetivos ainda maiores.

Em 6 de Janeiro de 2023, nasceu no bairro do Curuzu, mesmo local em que outrora surgiu O Mais Belo dos Belos, o Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu. A organização foi criada com o objetivo de manter viva a história e o legado de mulheres negras que tiveram importantes contribuições para o movimento negro brasileiro, iniciando-se pelo legado de Mãe Hilda Jitolu, a matriarca do Ilê Aiyê, que muito contribuiu para a valorização da cultura e religiosidade negras. Mãe Hilda nasceu em Salvador, em 6 de janeiro de 1923, e em 1952 fundou o Terreiro Axé Jitolu, em um dos bairros mais negros da capital baiana, o Curuzu.

O futuro é incerto, mas, enquanto houver racismo, haverá resistência!

Valéria Lima é Ekede de Azonsu do Axé Jitolu, jornalista e mestre em Estudos Étnicos e Africanos. Nasceu no bairro do Curuzu, um dos bairros mais negros da capital baiana. É idealizadora e diretora-executiva do Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu. Atuou em instituições como Ilê Aiyê e TVE.

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